Discoteca Básica; 'Berlin', Lou Reed (1973)


Discoteca Básica; 'Berlin', Lou Reed (1973)

Discos conceituais já não eram novidade, no início da década de 70. Eles funcionam como trilhas-sonoras de idéias, de conceitos - daí o nome. O LP conceitual é um todo orgânico, um corpo constituído por vários elementos (cada um exercendo uma função em prol da idéia central): a capa, o título, as letras, a ordem das músicas e até (nos países civilizados) a divulgação.
O "Berlin", terceiro LP solo de Lou Reed, é talvez o exemplo mais bem acabado de um disco conceitual. É uma viagem pelo cotidiano do underground, da marginália dos centros urbanos, tudo contado num tom de poesia cruelmente direta e fria.

A produção e os arranjos são de Bob Ezrin (que tinha acabado de produzir os melhores LPs de Alice Cooper). Ezrin escolheu a dedo músicos, estúdios de gravação, fez a mixagem e ainda uma edição brilhante: transformou as duas horas de material gravado, através de cortes e emendas, numa matriz de cinqüenta minutos.

O LP abre com o teipe de uma voz que anuncia: "Eins, zwei, drei..." e pronto, estamos em Berlim (a música em questão é a faixa-título). Bons tempos aqueles, conclui Lou. Mas a realidade é outra - e os climas que se seguem não são indicados para suicidas em potencial.

A segunda faixa do disco é "Lady Day", um clássico de Reed, e, para quem está ouvindo o disco, a certeza de que dificilmente um produtor conseguirá reunir de novo um naipe de instrumentistas desse nível. São músicos vindos de formações diversas: Steve Winwood, Jack Bruce, Aynsley Dunbar, os irmãos Brecker e Steve Hunter - só para citar os mais famosos.

Com "Men of Good Fortune" as coisas vão ficando amargas ("homens afortunados/ muitas vezes causam quedas de impérios/ enquanto homens de pobres começos/ muitas vezes não podem fazer nada").

Com "Caroline Says I" Lou começa a contar histórias sobre as pessoas que o cercam ("ela me trata como se eu fosse um imbecil/ mas para mim ela ainda é uma rainha germânica"). Em "How Do You Think it Feels" e "Oh, Jim" o assunto é drogas, solidão e desespero, tudo contado num tom isento e desleixado pela primeira pessoa (são comuns, ao longo do LP, frases como "mas eu não ligo" ou "pra mim tanto faz").

No lado B, Lou, cantando sempre com voz baixa e triste, retrata o caráter violento do narrador - o próprio Lou - na continuação "Caroline Says II": "Caroline diz - enquanto ela se ergue do chão/ você pode me bater o quanto quiser/ mas eu não te amo mais". Daí pra frente a barra pesa mesmo. Em "The Kids", em meio às dissonâncias do baixo, à melodias atonais de uma flauta doce e aos gritos desesperados e autênticos de "mamãe!" feitos por crianças, Lou conta a história de uma mulher que perdeu a custódia dos filhos. Só que, dessa vez, a postura do narrador não é tão neutra: "E desde que ela perdeu sua filha/ são seus os olhos que se enchem de água/ e dessa maneira eu fico mais feliz".

A letra de "The Bed" fala por si: "Esse é o lugar onde ela pegou a lâmina/ e cortou seus pulsos naquela noite estranha e malfadada/ e eu disse oh, oh, oh, que barato". E encerrando o disco com chave de ouro, outro clássico deprê de Lou Reed, "Sad Song", com um brilhante arranjo orquestral de Ezrin.

Todas as faixas de Berlin são lentas, mas isto, de fato, não importa muito. Este disco não é menos emocionante, impressionante e influenciador por causa disso. E tampouco deixa de ser o primeiro LP conceitualmente "deprê" do rock'n'roll. Uma visão que rompeu tabus e abriu novos caminhos na música pop: a realidade das ruas dos grandes centros pode ser cantada e transformada em música. Não é à toa que o Berlin é disco de cabeceira de gente como Siouxsie, Budgie, Iggy Pop e o pessoal do New Order. 

Thomas Pappon (Revista Bizz -Edição 20, Março de 1987) 

Curiosidade; O disco foi lançado primeiramente na Inglaterra, em julho, com uma grande festa no Cafe Royale, com as presenças de várias estrelas do mundo musical, como Mick Jagger e David Bowie. Berlin acabou conseguindo a sétima posição na parada, um bom resultado para um disco tão indigesto. Mas na América natal, tudo foi diferente. Lançado em setembro, crítica e público não conseguiam digerir algo tão funesto e a Rolling Stone considerou-o um desastre. Outras críticas consideravam o disco como neurótico e niilista. E as vendas acabaram naufragando. Se “Walk On the Wild Side” tinha sido a canção do ano, em 1972, Berlin não tinha nenhuma faixa com potencial radiofônico e o resultado foi apenas a decepcionante e alarmante 98ª posição de álbum mais vendido.

Tracklist;
1. Berlin 
2. Lady Day 
3. Men of Good Fortune 
4. Caroline Says I 
5. How Do You Think it Feels 
6. Oh, Jim 
7. Caroline Says II 
8. The Kids 
9. The Bed 
10. Sad Song 





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