Discoteca Básica; 'Marquee Moon', Television (1977)


Discoteca Básica; 'Marquee Moon', Television (1977)


Malcolm McLaren sabia que os "pais da matéria" estavam nos EUA. Foi lá que ele buscou inspiração para que o movimento punk acontecesse - de forma concentrada - na Inglaterra. O que seria do punk sem o despojamento dos N.Y. Dolls, a demência dos Stooges, o antilirismo do Velvet e a agressividade do MC 5? E não foram só estas - todas elas, bandas extintas anos antes do punk - as fundamentais. Nova York fervilhava de bandas que acabariam traçando os moldes do que viria depois do punk. Eram as bandas new wave de Nova York e, dessas, a mais importante, ao lado dos Talking Heads e dos Voidoids de Richard Hell, foi o Television.


A história deles começa com o grupo Neon Boys, fundado por Tom Verlaine (guitarra/vocais) e Richard Hell (baixo/vocais) em 71. Richard Lloyd (guitarra) e Billy Ficca (bateria) completavam o grupo, que alguns anos depois mudaria de nome para Television. Hell saiu por volta de 74, e Fred Smith, ex-baixista da Blondie, foi chamado para substitui-lo. Em 74, o TV gravou um single e em 77 eles assinaram com a Elektra para gravar o "Marquee Moon", o primeiro LP. 

Em meio à avalanche punk em que a maioria das bandas fazia um som rápido e primário (Ramones, Dead Boys) ou flertava com o pop (Blondie, Marbles), o Television optava por uma linha musical mais elaborada, com melodias harmoniosas, convivendo com ruídos e músicas longas que, ao vivo, se transformavam em verdadeiras jam sessions.
O som do TV remete a uma gama de referências musicais, que vão de Byrds a Neil Young, de Doors a Velvet Underground. Não que o TV soasse como uma das bandas citadas. Ela parecia querer ser todas elas ao mesmo tempo e um pouco mais.


A música de "Marquee Moon" é leve em seus ingredientes e pesada em sua atitude. Os instrumentistas não usam efeitos ou pedais. É rock'n'roll puro, de uma fluidez impressionante. Verlaine e Lloyd formam uma das duplas de guitarristas de rock que mais deram certo. Ambos solam, se alternam em riffs, bases e harmonias. Ambas as guitarras - principalmente a de Verlaine - alcançam sonoridades que às vezes parecem com guinchos, grunhidos e gritos. Ficca e Smith formam uma cozinha "à francesa" leve, com toques jazzísticos, sem abusos.

As letras - todas de Verlaine - sugerem mais do que dizem, como na faixa de abertura "See No Evil" ("Eu entendo tudo/ a destruição urge/ela parece tão perfeita/eu vejo/eu não vejo nenhum mal"). As texturas sonoras são molduras perfeitas para as letras, como na faixa seguinte, a balada "Venus", em que Verlaine cai "direto nos braços da Vênus de Milo". Em "Friction" o destaque vai para o solo esquizofrênico de Verlaine, assim como na comprida "Marquee Moon" (que, aliás, tem um belíssimo falso gran finale).

O lado B começa com uma jóia, "Elevation" ("A última palavra/é a palavra perdida/por que você não o diz então?"), onde o junkie Lloyd faz um solo emocionante. "Guiding Light" (única co-parceria de Verlaine no disco - com Lloyd) é mais uma balada que demonstra a sensibilidade harmônica de Verlaine. Em "Prove It", a combinação de base sonora simples com o caleidoscópio de images evocadas por Verlaine é mais uma vez perfeita. Em "Tom Curtain", a última música do disco, outra magnífica combinação: a voz chorosa de Verlaine relembra os anos passados, enquanto sua guitarra estridente rola suas lágrimas mais amargas.

Nem o Television (que acabou em 79) nem seus integrantes em carreira solo conseguiram fazer um disco à altura de "Marquee Moon" (que na edição nacional saiu com um ridículo carimbo de "punk rock" na capa). É este o disco que prova que eles eram, instrumentalmente, uma das bandas mais integradas da década de 70, e não há músico ou não-músico - de qualquer gênero - que, ao ouvir o disco, não se convença disto.


Celso Pucci/Thomas Pappon (Revista Bizz - Edição 22, Maio de 1987).



Curiosidade; Produzido por Andy Johns, o disco pode ser considerado como o marco zero do pós-punk, ao menos no que se refere a presença de elementos significativos para o estilo na década seguinte. Idolatrado por gente como R.E.M e Gang of Four, "Marquee Moon" rasga a cartilha do curto e grosso e põe na mesa elementos de proto punk – a exemplo da influência de New York Dolls em "See No Evil"- contando, inclusive, com um "sacrílego" solo de guitarra. Quer mais? Que tal uma faixa, em um disco punk, de quase onze minutos (a própria faixa título) onde fica nítido a influência de art rock, cheia de mudanças rítmicas e outras "frescuras" para os padrões da época? 

(
http://whiplash.net/materias/cds/175916-television.html#ixzz2ziVP7LUN)

Tracklist (Clique nos atalhos para ir direto a música que quiser)
01 See No Evil 00:00

02 Venus 04:03

03 Friction 08:02
04 Marquee Moon 12:51
05 Elevation 23:44
06 Guiding Light 29:00
07 Prove It 34:42
08 Torn Curtain 39:51

Bonus tracks da edição especial comemorativa;

09 Little Johnny Jewell Parts 1 & 2 47:05

10 See No Evil (Alternate Version) 54:20

11 Friction (Alternate Version) 59:05
12 Marquee Moon (Alternate Version)1:04:05
13 O Mi Amore (Instrumental)  1:15:03



This entry was posted on 21 de abr de 2014 and is filed under . You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. You can leave a response.

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