Disco da semana; 'To Be Kind', Swans (2014)


Disco da semana; 'To Be Kind', Swans (2014)

Quem poderia imaginar, após a dissolução do Swans em 1997, que o melhor ainda estava por vir? Depois de desenvolver sua carreira solo e tocar os Angels of Light, Michael Gira anunciou o retorno da banda em 2009 e, desde então, não apenas reviveu o som do Swans, como também o levou a outra escala de grandeza. The Seer, o monstruoso disco duplo lançado em 2012, trazia mais de duas horas de música ao longo de onze faixas, uma das quais tinha mais de meia hora de duração – nem mesmo os momentos mais extremos da carreira do grupo podiam sugerir essa mudança rumo às durações extremas. Mas Gira e companhia continuam nessa direção em To Be Kind, com resultados igualmente grandiosos.

A capa de The Seer era escura com um lobo no meio. A de To Be Kind é clarinha, com um bebê em seu centro. Essa mudança visual, junto com o título, sugerem uma maior “gentileza” no som da banda, e por mais estranho que pareça, To Be Kind tem alguns aspectos mais otimistas que seus antecessores. “Some Things We Do”, a “faixa curta” do disco (com cinco minutos, é uma das cinco que não chegam aos 10 minutos), mostra como se dá essa sutil mudança. Sua letra é uma lista de verbos na primeira pessoa do plural, declamada lentamente por Gira, em dueto com Little Annie, acompanhada de cordas ominosas que parecem rir da futilidade daquelas atividades humanas. Ela termina alterando entre “we love” e “we fuck”, mas no fim, escolhe “we love” – uma das coisas mais próximas de esperança a aparecer numa faixa do Swans.

Mas “Some Things We Do” é exceção. No geral, To Be Kind é um disco agressivo, opressivo e tão denso quanto possível. As armas principais do Swans são os crescendos e a repetição. As faixas começam simples: um riff, uma melodia, que vai se repetindo e, ao longo de sete, 10 ou 15 minutos, se tornando monstruosa. As durações exageradas das faixas permitem que as ideias sonoras cresçam de forma natural e orgânica, sem pressa, e se transfigurem de formas inusitadas. É quase como se as composições fossem uma entidade maior que controlasse todos os músicos ao mesmo tempo. O resultado lembra as jams bizarras de grupos de krautrock como o Can e o Amon Duul, mas a sensação de divertimento e experimentação sem rumo que essas bandas traziam é substituída, nessas faixas, por um clima tenso e muito bem direcionado.

“Oxygen” mostra esse método de ataque da forma mais direta possível: seus oito minutos são ocupados quase totalmente por um só riff, ao qual vão se acrescentando os vocais sufocados de Gira, uma levada ruidosa de bateria, percussões e, no final, um naipe de metais que grita ensandecidamente. As meditações niilistas de “A Little God in My Hands” adotam a mesma estratégia, mas trocam a velocidade por um ritmo martelado e uma névoa de vozes estranhas. “Nathalie Neal” também cresce desse jeito: começa com apenas alguns ruídos e samples de vozes e depois vai fermentando um groove em tempo composto, com guitarras, vocais e uma bateria quase marcial que balança ameaçadoramente e suga o ouvinte pra dentro de um turbilhão de sons.



Mas não é só por meio de densas massas sonoras que o Swans consegue ser pesado. Há também, em diversas canções, uma sensação de medo, solidão e ameaça iminente que vem da economia de sons. A mais notável, nesse aspecto, é “Just a Little Boy (for Chester Burnett)”. Seu andamento lento e o reverb que cobre alguns instrumentos dão uma ideia de enclausuramento e impotência, traduzindo maravilhosamente bem a sensação sugerida pelo seu título. Quando a voz de Gira começa se a se tornar mais estranha e agressiva, há o medo de que a faixa vá explodir a qualquer instante, e essa tensão se acentua quando ele grita “I need love!”. A primeira metade de “Kirsten Supine” vai por esse caminho também. Com ruidos esparsos acompanhando a voz de Gira, ela oferece uma paisagem bonita em meio ao deserto devastado de sons que o resto do disco traz – até começar a inchar e inchar cada vez mais na segunda metade.

A peça central do álbum, porém, é a colossal “Bring The Sun / Toussaint L’Ouverture”, de trinta e quatro minutos de duração. Ela já começa martelando as orelhas com um acorde repetido à exaustão, como que para limpar o paladar do ouvinte para o que está por vir. Depois desse começo, sua lenta escalada se inicia com teclados, algumas vozes suaves, algumas notas de guitarra e até uma cítara no fundo. Entram então a bateria, a distorção e, em seguida, um coro que começa a chamar o sol, cada vez mais alto, cada vez mais rápido, junto com o resto da banda. Lá pelos 15 minutos, a faixa atinge uma apoteose tão absurdamente grandiosa que, se ela não consegue acender o sol no meio da noite, não é por falta de tentar. Mesmo depois de terminar, essa parte da música ainda segue ecoando nos ouvidos, e sua a segunda parte, em homenagem ao líder haitiano que comandou uma revolução de escravos, parece se construir das ruínas do que sobra quando a primeira metade acaba.

To Be Kind, com mais de 120 minutos de duração, contém mais música do que a carreira inteira de uma banda como o No Age, por exemplo. A escala enorme dos trabalhos do Swans traz consigo uma série de dificuldades que a banda parece não se preocupar muito em derrotar: o disco não faz concessão alguma para se tornar acessível, ele praticamente se constrói a partir da noção do excesso, e “auto indulgente” não é suficiente para descrever o quanto o álbum se fecha sobre si mesmo. Basta, de fato, uma olhada na lista de músicas para perceber que esse não é um álbum para se colocar pra tocar numa festa de aniversário. Isso à parte, é também uma realização admirável, que deixa claro que Michael Gira tem um projeto artístico claro e singular, e está plenamente disposto a fazer o que for preciso para realizá-lo – algo raro de se encontrar. Para conhecer esse projeto, é necessário escalar uma enorme barreira. Mas a vista de cima dela é linda.


Tracklist

01. Screen Shot
02.
Just A Little Boy (For Chester Burnett) 
03. A Little God In My Hands
04. Bring The Sun/Toussaint L'Ouverture
05. Some Things We Do
06. She Loves Us
07. Kirsten Supine
08. Oxygen
09. Nathalie Neal
10. To Be Kind





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This entry was posted on 1 de jan de 2015 and is filed under . You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. You can leave a response.

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