Disco da Semana; 'No Line On The Horizon', U2 (2009)


Disco da Semana; 'No Line On The Horizon', U2 (2009)
Imagine só; Você tem 48 anos, trabalhou duro a sua vida inteira e já conseguiu uma independência financeira que te permite comprar o que quiser e curtir a vida em locais paradisíacos. Você está bem casado, tem filhos lindos e mais, desenvolveu atividades paralelas que te permitem aposentar sem ficar coçando o dia inteiro. Ter prazer, ter uma atividade produtiva e ainda viver do jeito e aonde quiser.
Esse é o retrato do U2 em 2008.
Todos nós sonhamos com isso. Independência financeira e experiência de vida. E além de tudo, reconhecimento profissional. Eu, sinceramente, teria ligado um foda-se pra tudo e faria o que quisesse quando quisesse, e não me desafiar á algo que poderia colocar em risco muito do que eu construí com o tempo.
Mas esse não é Bono. Não é Edge. Ok, Larry e Adam são um pouquinho, mas não é tão difícil de convencê-los á embarcar em uma viagem. Musical e pessoal.
Marrocos / Dublin. Brian Eno / Daniel Lanois. “No Line On The Horizon”.
A inquietude. O desafio. A vontade de mostrar que não há linhas que não possam ser quebradas. A vista da casa de Bono. O tempo. África como terra-mãe. Momentos de rendição. James Joyce. Deus. Maomé. Jah. Estados Unidos.
De tempos em tempos ele se desafiam. Foi assim com “The Unforgettable Fire”, onde uma banda pós-punk, baixo/guiatarra/bateria se meteu com dois produtores cabeça para tentar tirar algo maior. Com “Rattle And Hum”, onde tentaram virar ícones. Com “Achtung Baby!”, quando disseram que não eram aquilo que nós pensávamos e todos acreditaram, até “Pop”, onde para muitos a piada perdeu a graça.
All That You Can’t Leave Behind” foi a reinvenção “Best Of”. Pegaram tudo o que fazia U2 o U2 e colocaram num pacote pronto para sem consumido e digerido. Os trouxe de volta para as paradas de sucesso, para aMTV depois de tantos anos no espaço sideral.
Seria um contra-senso justamente quando conseguiram tudo aquilo que perderam de volta, atirar de novo para a desconfiança.
Mas, porque não?
Mas com um pé no breque, por favor…
E isso é “No Line On The Horizon”. Um disco rico em beleza e pobre em sucessos. Belo por dentro e estranho por fora. Conceitual e supérfluo. Corajoso e covarde.
Foi corajoso lançar “Get On Your Boots” como primeiro single? Num primeiro momento, sim, mas ao ouvirmos o disco, percebemos a sua covardia.
A beleza do conteúdo está no conceito. Para muitos, o que impede da banda ser amada por inteiro. Todos esperam deles hits. Sempre. Hinos. Querem deles o que eles fazem de melhor. Anos após ano. E eles sempre evitaram isso. Sabiam que era um tiro no pé da história se render ao que se espera de você. A imprevisibilidade é sua amiga quando a rotina está por vencer. Esse é um disco de conceito. Com um buraco no meio. E o buraco são os singles.
E dessa vez, eles ficaram no meio do caminho. Conceito e singles não bateram. Assim com em “Pop”, em 1997.
Na abertura temos o tema. “No Line On The Horizon” é viva, energética, moderna e nostálgica ao mesmo tempo. Bono olhando pela janela, vendo o mar, o horizonte, sua mulher e seus filhos. A paixão pela vida. A hora certa de arriscar. Uma música que muitos passam anos tentando em vão compor. Representa o disco assim como “Zoo Station”, “Zooropa”, e “Beautiful Day” foram para os seus. A síntese de uma idéia.
Magnificent” é um clássico. Uma faixa que resume tudo feito pela banda. Dos gritos de “War” á guitarra misteriosa de “Achtung Baby!”. Do tema messiânico de “October” ao ritmo dançante e sincopado de “Pride”. Deus, Maomé… Amor como cura. Religião como descoberta.
Moment Of Surrender” te conquista com o tempo. Confesso que não me pegou de cara, mas hoje, sou do time do Brian Eno; É o primeiro single de um disco como esse. É a música que traria a atenção para o que o ele tem de melhor. Um hino dolorido, marcado por uma grande interpretação de Bono.
Unknown Caller” é outra que sintetiza a intenção do disco. “Restart and reboot yourself… You’re free to go” Como palavras de ordem. Somos adultos, mas ainda temos medo. Medo da morte. De o tempo passar rápido demais. Medo de nos esquecermos de algo importante. De que se esqueçam de nós… Um homem sentado ouvindo as ordens de Deus. Ouvindo sua consciência despertar.
São temas muito profundos para um moleque de 20 anos que comprou “Vertigo”. Eles deveriam saber disso… Ou não se importar.
Mas eles se importaram… “I’ll Go Crazy If I Don’t Go Crazy Tonight” e “Get On Your Boots”, os carros chefes do álbum, seus singles, as que ficarão nos futuros “Best Of” da vida, são dispersas, divertidas somente para nós, fãs radicais, que consumimos até duetos com Tony Bennet, Wyclef Jean e Rihanna.

Quando Bono quis ligar conceito com pop errou. Foi covarde. Foi medroso. Esse era um disco para afundar nas vendas? Então que seja! Não tentem dar uma maquiada, jogar uma purpurina num senhor de 50 anos com dúvidas existenciais.
Essa escorregada custou muito caro. O disco afundou nas vendas do mesmo jeito e todo mundo só tem essas duas faixas na cabeça. Acabam perdendo “Stand Up Comedy” e sua guitarra zeppeliana. Um mix de “Bullet The Blue Sky” e “Mysterious Ways”… A balada de guerra “White As Snow”, umas das coisas mais belas e difíceis que já compuseram, com uma cadência crescente porém delicada e diferente de tudo que veio antes… “Breathe”, um clássico Dylaniano pungente, ácido, gritado e rock n’roll até a medula, com letra difícil e inspirada… “Todos os dias eu morro e renasço de novo”… “Nascemos no som e as canções são seus olhos…”. “Eu corro pelas ruas como eletricidade”… Um grito de liberdade inesquecível…
E pra fechar, “Cedars Of Lebanon”. Lou Reed + Leonard Cohen. Um observador. Crooner. Uma das melhores coisas feitas pela banda… Marcada pra ser esquecida.
Tudo isso que eu disse acima só se confirmou com a “360 Tour”. Um monstro do tamanho da “Popmart”, mas sem sua coragem. Trouxeram coisas como “The Unforgettable Fire” e “Ultra Violet” de volta… Fizeram uma versão corta pulsos de “Your Blue Room”… Mostraram os conceitos… Meteram cinco musicas novas na abertura… Remixaram “Crazy Tonight” e a transformaram em tudo que “Discothéque” não conseguiu ser… Mas na hora de bancar, de dizer foda-se, o mostro falou mais alto e aos poucos, a coragem foi substituída pelo medo de estádios vazios e críticas negativas.
Por isso que a chamada ‘Era-Pop’ foi a mais importante da carreira da banda. Porque matou os culhões… Colocou a aposentadoria á frente da arte… “Ahhh, mas como fazer shows em estádios e não tocar hits?” alguns diriam… “E quem precisa de estádios?” Eu digo… Diminuam de tamanho e abracem o seu público. Foi assim que escaparam de virar dinossauros em 89 para a glória em 91. Abraçando o seu público em arenas pra vinte mil pessoas. O que veio depois foi conseqüência.
De uma fase que tinha tudo para ser marcada pra sempre, tiramos que coragem de velho é atravessar a rua nesses tempos violentos. E olhe lá!
Mas se você entendeu um pouquinho, já tem trilha sonora para a crise dos trinta que virá… Acredite, aqui estou eu!
Tracklist;
01. No Line On The Horizon
02. Magnificent
03. Moment of Surrender
04. Unknown Caller
05. I'll Go Crazy If I Don't Go Crazy Tonight
06. Get On Your Boots
07. Stand Up Comedy
08. FEZ/Being Born
09. White As Snow
10. Breathe
11
. Cedars of Lebanon


Mais informações 
http://pt.wikipedia.org/wiki/No_Line_on_the_Horizon

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