Discoteca Básica; 'Autobahn', Kraftwerk (1974)

Discoteca Básica; 'Autobahn', Kraftwerk (1974)
Tentando ver de um jeito otimista, a falta de celebração em torno dos 40 anos de Autobahn, clássico do Kraftwerk lançado em 1º de novembro de 1974, pode ser lida como um sinal de que a revolução que o disco representou já está totalmente assimilada e estabelecida. É como se a interação entre homem e máquina (a obsessão temática do grupo) e a artificialização do cotidiano fizessem parte da nossa vida como sempre fizeram, dispensando marcos comemorativos.
Quando lançou Autobahn, o Kraftwerk já tinha três LPs, conhecidos apenas dos fãs mais dedicados de art-rock, psicodelia, progressivo e música instrumental vanguardista. Lançados entre 1971 e 1973, dispensa dizer que eram autênticas “viagens”, mesmo antes que a dupla resolvesse se inspirar em passeios de carro, trem ou bicicleta para compor.
Mas Autobahn providenciou um daqueles encontros do artista consigo mesmo, um esclarecimento de potencialidades e intenções como às vezes acontecem no mundo da música. A dupla de frente Ralf Hütter e Florian Schreider já havia recrutado o baterista Wolfgang Flür que os acompanharia até o final dos anos 1980, e todos já estavam perfeitamente instalados em seu próprio estúdio, o Kling Klang, em Dusseldorf, Alemanha. Cercados de sintetizadores, baterias eletrônicas primitivas, órgãos e até instrumentos de brinquedo, perceberam que as coisas haviam mudado quando usaram pela primeira vez um de seus bordões internos mais clássicos: “Nosso baterista não precisa mais suar!”
A peça central do disco é a faixa-título, Autobahn, com seus 22 minutos de “filme sonoro” na definição de Schneider. Zunidos de carros pelas famosas autopistas alemãs foram gravados pela banda da janela de seus próprios automóveis, depois reprocessados em Kling Klang. Pessoas em núcleos familiares viajando em máquinas a centenas de quilômetros por hora em autobahns projetadas por homens e construídas por outras máquinas era uma alegoria perfeita para o conceito que se esclareceu totalmente ali: “Não é mais eu e você, agora é... ‘a coisa’”, explicou Hütter ao jornalista Lester Bangs no New Musical Express. Era um mundo anterior ao Google Glass, às conversas via internet, às realidades virtuais - mas o Kraftwerk já estava nele.



Autobahn foi o primeiro lançamento internacional do grupo, ganhando imediatamente a louvação da imprensa especializada. Bangs definiu o grupo com o título de sua reportagem: “a solução final”.  Hütter não gostou: “não somos a solução, somos o passo seguinte”. QuandoAutobahn foi editada em single (foto à esq.), em meados de 1975, ela bateu na 10ª posição da parada inglesa, 25º na parada americana, puxando o álbum a um impressionante quinto lugar nos Estados Unidos.
O sucesso de Autobahn e do Kraftwerk chamou a atenção para uma geração de jovens artistas vindos da Alemanha praticando uma espécie de desdobramento do rock progressivo, buscando reinventar o rock à parte de suas influências blues/country. “O entretenimento alemão foi destruído depois da segunda guerra, o povo teve sua cultura roubada”, explicou Hütter em 1975. “Nós somos a primeira geração a tentar mudar isso.”
O chamado krautrock de bandas como Faust, Can, Amon Dull e Tangerine Dream, com maior ou menos similaridade à música eletrônica do Kraftwerk, ajudou a abrir toda uma nova fronteira para o rock. Há um bom documentário de 2008 contando sobre toda a cena. 
No filme, o historiador Diedrich Diederichsen tem uma fala fundamental, a respeito de outro paradigma quebrado dentro de sua geração: “Todas as outras bandas eram experimentais, e o Kraftwerk não tinha nada de experimental”. De fato, o universo criado por Hütter e Schreider era tão rigoroso que dali alguns anos, estariam levando bonecos robóticos de si próprio para os palcos e sessões de foto.
O rock progressivo de matriz elétrica terminava ali – ou, ao menos, se caracterizaria como algo totalmente démodé. A Alemanha se transformava na matriz da simbiose homem-máquina e gerava o tecnopop, o ambient e, curiosamente, a disco music filtrada pelo produtor italiano Giorgio Moroder.
É possível que uma balada melosa de Luan Santana hoje tenha mais gigabytes de tecnologia artificial do que toda a discografia do Kraftwerk. É um grande sinal de como os alemães estavam corretos em sua teoria da interação homem-máquina. E de como, bem, como eles não traziam a solução, mas o passo seguinte.
Tracklist;


01. "Autobahn" 
02. "Kometenmelodie 1" 
03. "Kometenmelodie 2" 
04. "Mitternacht"
05. "Morgenspaziergang"


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