Discoteca Básica; 'Pieces of a Man', Gil Scott-Heron (1971)


Discoteca Básica; 'Pieces of a Man', Gil Scott-Heron (1971)


"Sou um negro dedicado à expressão: expressão do prazer e de orgulho da negritude. Não me considero poeta, compositor ou músico. São meras ferramentas usadas por caras sensíveis para esculpir uma peça bela e verdadeira, que eles esperam conduzir à paz e à salvação".

Assim Gil Scott-Heron se apresentava em "Small Talk At 125th And Lenox" (70), seu álbum de estréia. Nada mal para um jovem escritor que aos 19 anos lançou o conto "The Vulture" ("O Abutre"), seguindo por uma coleção de poemas (com o título que daria ao disco) e outro livro, "The Nigger Factory" (algo como "A Fábrica de Crioulos"). Os temas? Combate ao racísmo e críticas ferinas ao consumismo, ao poder das mídias e às aspirações medíocres da classe média americana. Só isso faria dele um precursor do rap, mesmo a não se levar em conta que foi o pioneiro nesse estilo de canto "falado".

Nascido em Chicago e criado no Tennessee, o cara acabou no Bronx, violento bairro de Nova York, onde foi forjar sua revolta diante da miséria do gueto. Mas, ao invés de bandidagem, ele preferiu usar a poesia como arma. Ganhou uma bolsa para Universidade Lincoln, na Pennsylvania, desenvolvendo a militância anti-racista, a verve literária e a paixão pela música negra, do blues ao soul, passando - principalmente - pelo improviso intuitivo do jazz. Uma influência vinda de Brian Jackson, colega pianista de quem se tornou parceiro. A esta altura, Gil já lançara "Small Talk...", com seus vocais proto-rap e percussão afro - em faixas como "Whitey On The Moon", "No Knock", "Brother" e "The Revolution Will Not Be Televised" (contundente poema de protesto, regravado por grupos como The Last Poets e LaBelle).



Bob Thiele - dono do Flying Dutchman, selo que editou o disco - chapou com os versos afiados de Gil aliados ao fino som da banda de Jackson: Pretty Purdie (o baterista) And The Playboys - com feras como Hubert Laws (flauta/sax) e Ron Carter (baixo). Acabou gravando um segundo álbum - em apenas dois dias - que começava com um arranjo definitivo para "The Revolution..." ("Você não será capaz de ficar em casa, brother.../A revolução não será televisionada/A revolução não terá reprise, brother/A revolução será ao vivo!"). Abordava dilemas nas relações familiares ("Home Is Where The Hatred Is", a faixa título) e amorosas ("When You are Who You Are"), além de conter baladas inspiradas em Marvin Gaye ("Save The Children", "I Think IÕll Call It Morning") e um tributo ao sax de um de seus heróis ("Lady Day And John Coltrane")... Em 72, Gil faria "Free Will", como "Sex Education: Ghetto Style", The Get Out Of The Ghetto Blues" e "Did You Hear What Thay Said?". Depois mudou de gravadora e teve certa projeção com canções como "The Bottle", "Johannesburg" e "We Almost Lost Detroit". Sua associação com Jackson - chamada de Midnight Band - durou até o fim dos anos 70, quando as suas apresentações tornaram-se esporádicas e Gil passou a dividir o tempo entre a música, a literatura e o jornalismo.

O trabalho do Scott-Heron tornou-se inconstante, mas seus lemas de liberdade e não conformismo permaneceram perenes, pautados na inteligência e no refinamento. A anos-luz da truculência explícita do gansta rap ou das variantes do estilo. O lamentável é que, com com toda essa onda jazz rap/acid jazz etc., o cara mantenha-se pouco conhecido - e não reconhecio como um dos seus maiores criadores. 

Celso Pucci (Revista Bizz, edição 105,Abril de 1994)

Tracklist;

1 The Revolution Will Not Be Televised
2 Save the Children
3 Lady Day and John Coltrane
4 Home Is Where the Hatred Is
5 When You Are Who You Are
6 I Think I'll Call It Morning
7 Pieces of a Man
8 A Sign of the Ages
9 Or Down You'll Fall
10 The Needle's Eye
11 The Prisoner




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