Disco da Semana; 'Achtung Baby', U2 (1991)



Disco da Semana; 'Achtung Baby', U2 (1991)

Dezembro de 1989. Dublin, Irlanda. Num dos últimos shows da "Lovetown Tour", que divulgou o comercialmente bem sucedido, mas massacrado pela crítica, "Rattle And Hum", o U2 toca um set list coeso, impecável e enfadonho. Cheio de hits, emanando a cultura americana, o U2 tinha se tornado uma banda enorme. Destinada a se tornar um dinossauro. Se colocando num pedestal de gente que estava no passado. E uma banda com dez anos de vida, que já tinha alcançado tudo o que seria possível até então, estava apenas contando as doletas e se preparando para um futuro medíocre e repetitivo. Como o Queen durante os anos oitenta; Ou os Stones nos anos oitenta e noventa... Não seria cedo demais?

Mas numa música daquele show, talvez algo estivesse nascendo; "God Part Two", pretensiosa 'continuação' de uma das mais memoráveis e controversas canções de Jonh Lennon, uma frase chamava a atenção;

"Don't believe in the 60's, The golden age of pop. You glorify the past, when the future dries up. Heard a singer on the radio late last night.He says he's gonna kick the darkness 'til it bleeds daylight. I... I believe in love"

Ao final daquele show, Bono profetizava que eles tinham chegado ao final de algo e que precisam sonhar tudo de novo. E alí começava uma viagem sem volta. Uma viagem que os levou aos confins de tudo o que acreditaram. 

Os caminhos da banda começaram a se entortar. Depois dos últimos shows daquela turnê, no inicio de janeiro de noventa, Larry e Adam tiraram umas férias e Edge começou a se interessar por algo totalmente diferente do que a banda vinha seguindo até então; Dance Music e música Industrial alemã. Sem certeza do que viria a seguir, chamou Bono para colaborar com ele na trilha de uma versão para o teatro de "A Laranja Mercânica". "Alex Descends Into The Hell For a Bottle Of Milk Korova", lançada posteriormente como B-Side foi o resultado, e muitos se assustaram. Mesmo já tendo feito experimentações eletrônicas antes, como "Race Against Time", lançado como B-Side de "Where The Streets Have No Name" em 87, a sonoridade era diferente, extrema, dançante e instrumental. Nenhum fã ficou assustado, já que aquilo era um projeto paralelo afinal...


 No final de 1990, a banda foi convidada a regravar "Night And Day", cover de Cole Porter para o então projeto "Red Hot And Blue", que teria seus lucros revertidos ao combate á AIDS. Lembro-me como se fosse hoje; De hora em hora, na MTV, o clipe estreava. Dark, sexy e, principalmente, eletrônico. Um susto pra quem estava assoviando "Angel of Harlem" até então.

Durante 1991, boatos rondavam a mídia... Até que "Salomé", um bootleg que continha uma sessão inteira de gravação realizada em Dublin no início daquele ano, chegou ao mercado negro. A estrutura de várias canções que viriam a ser lançadas já estavão lá, mas algo estava errado. As músicas eram roqueiras, aliviando os puristas, mas o clima era diferente. Bowie e Roxy Music vinham imediatamente a cabeça.

Restava somente esperar até o final do ano. E ele veio. E trouxe "The Fly".


Mesmo depois das últimas músicas, ninguém estava preparado pra ouvir aquele som. Uma banda sendo 
desconstruída na cabeça de seus fãs. Ninguém entendia nada.

Tudo escuro, Bono vestido de couro da cabeça aos pés, Edge usando uma touca e calças Glitter tocando uma guitarra com sonoridade pesada sob uma base que mais lembrava a então cena emergente de Manchester; Sincopada e dançante. Letras eram cuspidas e atiravam pra todos os lados;

"It's no secret that a friend is someone who lets ya help... It's no secret that a liar won't believe anyone else... It's no secret that a conscience can sometimes be a pest... It's no secret ambition bites the nails of success... Every artist is a cannibal, every poet is a thief...All kill their inspiration and sing about their grief"

"Everything You Know Is Wrong".

Esse era o lema.

Tudo foi propositalmente feito para confundir a audiência. No lugar do preto-e-branco sóbrio de outrora, as cores estouravam nos olhos. No lugar da América, entravam a Alemanha reunificada e a África misteriosa.

No lugar de hits, canções. No lugar do passado, o futuro. Uma banda estava renascendo.


E já na abertura, tínhamos exatamente o que eles queriam passar; "Zoo Station" é um rock industrial metálico, pesado, cínico. A voz de Bono está quase irreconhecível. O discurso, amplifica o sentimento de dúvida que a nova década trazia, mas o medo não passava pela cabeça deles... Eles estavam prontos para o gás do riso... Para o empurrão...

"Even Better Than The Real Thing" da continuidade ao disco num clima sensasional. Um rockão Glam setentista, com voz propositalmente sexy. "Meu coração está no seu devido lugar, mas minha cabeça, está em algum outro lugar"... Dela, surgiram remixes fantásticos... O melhor deles, até ganhou um vídeo engraçadíssimo... 

Durante o período de gravações em Berlin, a banda passou maus bocados. As coisas não estavam se conectando. A vontade de experimentar de Edge e Bono não estavam sendo bem aceitas por Larry e Adam, e no meio, estavam um monte de idéias inacabadas. Quando tudo parecia perdido e a banda se preparando pra abandonar o barco, veio "One"...

Ela é a boia do disco. Um alívio no meio do caos. "One" é uma força avassaladora. Narrada do ponto de vista de um filho morrendo em decorrência da AIDS, conversando com seu Pai, ela chegou ao coração de músicos, críticos e, claro, do publico. 


"Until The End Of The World" foi originalmente lançada em 1990, numa versão um pouco diferente, para a trilha do filme homônimo, dirigido pelo alemão Wim Wenders. Essa faixa cresceu muito ao vivo, ganhou uma energia que á transformou numa faixa obrigatória em 90 por cento dos shows que vieram á seguir. A ideia da faixa é uma narrativa sob o ponto de vista de Judas, sua visão dos salmos... Melhor música da banda pra muita gente.

"Who's Gonna Ride Your Wild Horses" foi o quinto single do álbum e foi remixada para o seu lançamento, numa versão, talvez, mais aceitável para o público americano. É uma balada galopante (perdoem-me o trocadilho), pungente e... Cafona! Scott Walker, cantor de voz grave dos anos sessenta, foi uma grande influência de Bono no disco. Agora, ele 'interpreta' as canções, não as vive.

A faixa seguinte foi um desafio para a banda; Originalmente uma balada acústica, "So Cruel" não combinava com o clima do disco. Nenhum problema quando se tem Flood, engenheiro de som da banda, que recortou uma batida de Larry, á processou com filtros eletrônicos, encheu de pianos e deixou a tarefa de criar um 'mood' com Bono. Mais uma vez, Scott Walker é presença aqui. A letra, uma metáfora sobre separação e dor. Um recadinho para Edge e sua ex-exposa, que pasavam por um divórcio incomodo para todos que os rodeavam.

Depois, temos "The Fly", que nos leva devolta pra o espaço. E para tirarmos o capacete e tentarmos respirar, vêm "Mysterious Ways". Mesmo sendo o oposto do primeiro single, esta é luz, doce, quente, colorida... Porém, é tudo o que o U2 nunca foi; Sexy.

O clipe sensacional dirigido por Stéphane Sednaoui no Marrocos, mostrava a banda pronta para um mundo novo. O poder da auto-transformação.
"Tryin' To Throw Your Arms Around The World" não é só mais uma numa linhagem de títulos grandes que a banda costuma usar, é a reafirmação da faixa anterior. Uma pop song, com introdução eletrônica, quase hip hop, sobre um homem perdido na madrugada depois de uma noitada de álcool e diversão. 

"Ultra Violet (Light My Way)" é uma speed-ballad tradicional, porém vem de outro clima. Aliás, a faixa mais importante das sessões foi "The Lady With The Spinning Head". Dela, três faixas foram originadas; "Zoo Station" é uma versão industrial, "The Fly" o mais rock, e está, uma pop song. É uma das preferidas dos fãs até hoje...

"Acrobat" é praticamente uma co-irmã de "The Fly", porém aqui, o discurso é o oposto. Se na primeira, temos a sensação de um homem presenciando o fim do mundo e nos mandando um alô, aqui, a redenção o alcança; "...And you can dream, so dream out loud, And don't let the bastards grind you down...

Pra encerrar, "Love Is Blindness". Comparar amor e terrorismo. Cegueira que a paixão leva alguém a cometer qualquer coisa. Numa cadência de valsa, guitarra cortante, voz de Bono sussurrada... Inacreditável o que eles conseguiram fazer com doze faixas.


O que veio depois? A revolução 'ZOO TV'... O resto é história.

(Márcio Guariba - Um Temperamental Vive Aqui! Blogspot, 2009)

Em 2011, a banda disponibilizou uma edição comemorativa de aniversário de luxo, contendo vários quitutes para fãs e colecionadores. A revista britânica Q organizou um tributo ao disco, com gente do calibre de Nine Inch Nails, Patti Smith, Garbage, The Killers, Depeche Mode e Jack White fazendo versões para as canções do álbum. A versão de White para a balada 'Love Is Blindness' ficou tão boa (para muitos, até melhor que a original) que acabou sendo utilizada como trilha do filme 'O Grande Gatsby', de 2013.

Para esta mesma leva de lançamentos, um documentário foi produzido para explorar a composição do álbum. Dirigido por Davis Guggenheim (o mesmo do sensacional documentário sobre guitarristas, 'Á Todo Volume'), 'From The Sky Down' estreou no festival de cinema de Toronto, em 2011. Assista ao trailer;


Tracklist 

1. Zoo Station 
2. Even Better than the Real Thing 
3. One 
4. Until the End of the World 
5. Who's gonna Ride Your Wild Horses 
6. So Cruel 
7. The Fly 
8. Mysterious Ways 
9. Tryin' to Throw Your Arms Around the World 
10. Ultraviolet (Light My Way) 
11. Acrobat 
12. Love is Blindness 


CD 2 : Bonus Track (2011 Deluxe Edition)

Tracklist;

1. Lady With the Spinning Head (UV1)
2. Blow Your House Down
3. Salomé
4. Even better Than the Real Thing (Single Edit)5. Satellite of Love (Lou Reed)
6. Who's Gonna Ride Your Wild Horses? (The Temple Bar Remix)
7. Heaven and Hell
8. Oh Berlin!
9. Neat the Island (Instrumental) 
10. Down All the Days
11. Paint it Black (The Rolling Stones)
12. Fortunate Son (Creedence Clearwater Revival)
13. Alex Descends Into Hell for a Bottle of Milk Korova
14. Where Did it All Go Wrong?
15. Everybody Loves a Winner (feat. Maria McKee) (William Bell)
16. Even Better Than the Real Thing (Fish Out of Water Remix)




Mais informações;

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