Disco da Semana; 'October', U2 (1981)


Disco da Semana; 'October', U2 (1981)


Entender esse disco pouco ouvido do U2 é também entender um pouco mais sobre o processo pelo qual seus quatro integrante moldaram sua longeva amizade.

O processo de composição se iniciou logo após o término da "Boy Tour", em fevereiro de 1981. Um primeiro single, "Fire", já havia sido gravada em um estúdio nas Bahamas em um intervalo da gira. Sorbe ela, Bono falou no livro autobiográfico 'U2 by U2', de 2006; "‘Fire’ não foi uma música muito boa. Sempre tive esperança de que a poderíamos compensar à medida que fossemos avançando, mas, por vezes, não conseguimos".

Mas o grosso da lista final ainda residia no famoso 'caderno' de Bono. Fato que acabou sendo o grande responsável pela finalização capenga que o disco teve; Segundo consta a lenda, uma pasta com o caderno e outras anotações foi roubada enquanto a banda esteve em Portland com parte da perna americana da turnê e como tudo já estava acertado e banda precisava entregar para a Island Records um produto final até o final de Agosto, tudo teve de ser refeito as pressas. Lembrando que para a gravadora, apesar do burburinho que o primeiro álbum fez, o U2 ainda era um aposta arriscada. 

Os quatro, com o orçamento apertado, resolveram voltar para suas raízes e se enfurnaram onde tudo começou; No colégio Mount Temple. A banda alugou por um preço 'simbólico' e achou que alí encontraria um som para o próximo álbum. 

Dessa bagunça, nasceu "Gloria", posteriormente lançada como segundo single do disco e que ganhou o primeiro clipe propriamente produzido da banda. A gravadora, lógico, torceu o nariz; Imaginem que você tem uma banda nova quente nas mãos, vinda de um disco que causou alvoroço, principalmente na cena New Wave/Punk da época, com um punhado de boas críticas nos EUA, elogiando o carisma e a energia da banda, e a primeira música de trabalho disponível, mostra o cantor misturando canto gregoriano e bíblia; "I try to stand up but I can’t find my feet. I try to speak up but only in you I’m complete: Gloria in te domine". A batata, definitivamente, estava assando.





Além das limitações orçamentárias e de criatividade, a banda começo também a tropeçar nas suas limitações técnicas. "Tive grandes dificuldades na música ‘I Threw a Brick Through a Window’ por causa do tempo" conta Larry. "Muitas vezes, depois de passarmos dias compondo e recompondo, gravando e regravando, era difícil manter o ritmo, e o fato de não usar um metrônomo não ajudou em nada".

A letras são vagas improvisações que se esforçam para se conectar. "Rejoice", explicitamente católica e "Tomorrow", uma das mais doloridas composições de Bono sobre a sua adolescência e a perda de sua Mãe. 

E para, de certa forma, atrapalhar ainda mais o disco, a banda resolveu fazer o seu primeiro grande show em Slane Castle abrindo para o Thin Lizzy, em um dos maiores eventos da época. Em um momento muito pouco inspirado, a banda resolveu testar as novas canções nesse ambiente, abrindo o show com "Tomorrow" e introduzindo gaitas de fole folclóricas na canção ao vivo. "Um desastre", segundo Bono.

"Foi um dos nossos piores shows.", Edge completa. "Saímos do estúdio, de uma das experiências de gravação mais traumática das nossas vidas, e fomos direto ao show, sem tempo para ensaiar. 

Além de todo o imbróglio criativo, técnico e financeiro, a crise pessoal também se abateu sobre Bono, Larry e, especialmente, Edge, que chegou a abandonar a banda a certa altura. Convencidos de que a vida religiosa que levavam não combinava com a de vindouros Rock Stars, as coisas começaram a ficar tensas e estranhas. Principalmente, devido a participação dos três na comunidade cristã batizada de Shallom, que pesquisava e estudava profundamente a Bíblia. Porém, assim que Bono conseguiu convencer Edge a voltar, Larry pôs um ponto final na 'missa'; "Edge largou a banda, eu larguei as reuniões".





Adam, o único não cristão da banda, foi o que mais temeu pelo fim de tudo; "O Bono e o Edge apareceram e disseram que estavam tendo certa dificuldade em chegar a um consenso sobre o que estava acontecendo com eles espiritualmente e sobre o que significava fazer parte de uma banda".

Nesse momento, as coisas voltaram a fazer sentido. Em um momento que talvez só viesse novamente á acontecer no final daquela década, quando novamente em crise criativa, a banda deu á luz a "Achtung Baby". Esse momento de medo e insegurança logo no segundo disco, é o grande responsável pelo caminho firme e pela união que os levaria a se tornarem a maior banda do mundo em um pouco mais de seis anos daquela situação.

E essa confusão toda acabou resultando em uma obra parca de conteúdo. "October", a canção-tema, é uma pérola. Linda, doce e extremamente profunda sobre uma base de piano. 

O título veio de Bono. "Muito Joy Division. Segunda guerra, inverno europeu". A confusão só aumentava conforme o disco nascia; "I Fall Down" e sua base de teclado e pouca guitarra; "With a Shout", que tentava resgatar um pouco a energia juvenil de "Boy"; "Stranger In A Strange Land" e sua batida errante; "Scarlet", que recebeu um respeitável tributo durante a última turnê, é praticamente uma vinheta e, para fechar, eles resolveram utilizar o riff da guitarra da introdução utilizada ao vivo para "The Electric Co.", batizada de "The Cry", para tentarem terminar o álbum, com a faixa "Is That All?", que é praticamente um analogia do que seria o disco.

Apesar do lançamento modesto que a gravadora fez, o disco acabou indo bem no Reino Unido, mas ficou longe de ser o estouro que todos pensavam que tinham depois de que "Boy" havia ido tão bem.

Ainda em 82, pouco tempo depois do lançamento do álbum, a gravadora se encontrava em uma enrascada; Tinha ainda mais seis meses de turnê pela frente e nenhuma música confiável para ser lançada como single. A solução? "A Celebration", lançada como compacto juntamente de "Trash Trampoline and The Party Girl", que acabou ganhando inclusive um vídeo totalmente renegado pela banda, já que não faz parte de nenhum lançamento posterior feito. Além de "Party Girl", um mimo até hoje celebrado pelo fãs.

"October", o disco, é um obra incompleta, confusa, dolorida e de valor inestimável. É a sobra de "Boy" e a demo de "War". É um disco sem singles e sem longevidade mas é o primeiro real 'turning point' na carreira do U2. Ali, a amizade foi reforçada, o respeito foi renovado e a vontade de alcançar seu objetivos foi definida. Pra mim, é energético, sincero, honesto e rápido. Pueril na sua essência. Uma tentativa de subir um degrau sem ter aprendido direito a usar as pernas. "Gloria" é, até hoje, uma das minhas preferidas...O som foi moldado através do erro e meninos começaram a se tornar homens no mundo do showbizz. Se o U2 de hoje deve tudo a "Achtung Baby", o mega-U2 do final dos anos 80 nasceu aqui.

Nota; Em 2008, a gravadora Interscope remasterizou os quatro primeiros lançamentos e os relançou com material raro e inédito, além é claro, de uma embalagem luxuosa. "October" foi tratado com muito respeito; O disquinho bônus é uma jóia para os fãs, com apresentações raras ao vivo, como de "Scarlet" e "With a Shout", além dos b-sides da época.



Tracklist (Clique no atalho para ir a faixa que desejar)

01. Gloria 
02. I Fall Down 
03. I Threw A Brick Through A Window 
04. Rejoice 
05. Fire 
06. Tomorrow 
07. October 
08. With A Shout (Jerusalem) 
09. Stranger In A Stranger Land
10. Scarlet 
11. Is That All? 





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This entry was posted on 12 de out de 2016 and is filed under . You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. You can leave a response.

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