Discoteca Básica; 'Highway to Hell', AC/DC (1979)



Discoteca Básica; 'Highway to Hell', AC/DC (1979)


A introdução deste texto é destinada a quem ainda não era nascido em 1979. Naquele ano, ser fã de rock era missão para gente perseverante. Afinal, o furacão punk (que nem foi tão furacão assim) já definhava, restando apenas o Clash e sua peregrinação rítmica por jazz, ska, rockabilly e  musicais da Broadway, que resultaria nos ótimos London Calling e Sandinista!. 

O som dominante, porém, ainda era disco. ABBA, Boney M. e Bee Gees brigavam pelo topo das paradas. De rock mesmo, só Queen, Van Halen e AC/DC. O Queen havia passado por sua fase mais criativa e o Van Halen era uma ótima banda, mas sem um ótimo álbum. Sobrou ao AC/CD a incumbência de fazer o melhor disco de rock da temporada. E Highway To Hell tem muitos predicados para merecer todas as honras. 

O grupo dos irmãos Young (Malcolm, guitarra base, e Angus, guitarra-solo) vinha de uma série de turnês consagradoras, bem registradas no filme Let There Be Rock e no CD ao vivo If You Want Blood (You’ve Got It). A formação era a melhor que a banda já teve: Bon Scott nos vocais, Angus e Malcolm Young nas guitarras, Phil Rudd na bateria e Cliff Williams no baixo. Só que os álbuns anteriores tinham grandes clássicos ("Whole Lotta Rosie", "Problem Child"), mas estavam longe de ser uma obra completa. Até chegar a Highway To Hell. 

O quinteto trabalhou novamente com John "Mutt" Lange na produção. Apoiado na popularidade do AC/DC, Lange ousou. No lugar da massa sonora habitual do rock pesado, preferiu gravar pistas de guitarra limpas, sobrepostas com sutileza suficiente para ressaltar o lado blues da banda. O produtor burilou o agudo do vocal de Bon Scott e usou todos os membros do grupo no coro de apoio. O resultado é mais peso e menos barulho, passando muito longe do padrão tosco das bandas da época. 

O grupo inovou o gênero sem abrir mão de seus preceitos básicos: as letras machistas e fanfarronas, enclausuradas no binômio mulheres/bebida, a busca de uma melodia básica ao extremo, com uma batida quase marcial, e os solos alucinantes de Angus Young, o guitarrista das calças curtas que toca como se estivesse ligado à corrente que passa no fio do instrumento. 

O álbum inteiro soa como um greatest hits, embora "Walk Over You" e "Shot Down In Flames" se destaquem como as peças mais elaboradas. A pegada mais blueseira de "Beating Around The Bush" e "Love Hungry Man" ajudou a banda a ganhar um público mais adulto. E se todas essas qualidades não bastassem para garantir a Highway To Hell um lugar em qualquer boa discoteca de rock, há ainda o fato de ser o último registro de Bon Scott, morto meses depois, sufocado pelo próprio vômito. 

Highway To Hell é o flagrante da melhor fase de uma banda única, um guitarrista infernal e um vocalista que é uma lenda. 

Tales de Menezes (Revista Bizz, edição 154, Maio de 1998) 

Tracklist:

01. 'Highway to Hell'
02. 'Girls Got Rhythm'
03. 'Walk All Over You'
04. 'Touch Too Much'
05. 'Beating Around the Bush'
06. 'Shot Down in Flames'
07. 'Get it Hot'
08. 'If You Want Blood  (You've Got It)'
09. 'Love Hungry Man'
10. 'Night Prowler'

This entry was posted on 5 de dez de 2016 and is filed under . You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0. You can leave a response.

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