Desconstruindo o Pop! Playlist 143; 'Lost Love Soundtracks' (DoP! Special Edition)


Desconstruindo o Pop! Playlist 143; 'Lost Love Soundtracks' (DoP! Special Edition)

Fui criança nos anos oitenta e adolescente espinhudo nos noventa. Consumi todos esses produtos de cultura pop tão nostalgicamente celebrados hoje em dia e, musicalmente, fui influênciado pelas duas décadas e com toda a carga que elas traziam, desde o rock britânico dos anos sessenta e pelo punk setentista. Gostar de Nirvana, Pearl Jam, U2 e Guns N'Roses levava a gente a conhecer Pixies, Neil Young, David Bowie e Rolling Stones... Tudo, apesar da dificuldade, era auto-enriquecedor. Nos alimentávamos, através da falecida revista BIZZ e da MTV dos áureos tempos de VJ's com algum conteúdo musical para ser passado, do que a música produzia na mesma velocidade do resto do mundo e isso era a maior novidade que nossas terras tupiniquins tinham em muito tempo. As bandas dos anos oitenta se reembaralhavam para a nova geração e o resultado foi uma década que formou um tipo peculiar de sujeito, que eu me incluo; Pessoas com um conhecimento musical vasto que não seguiram nenhum caminho relacionado a música ou a cultura. Uma geração inteira de moleques que tentaram ter bandas e escrever zines (lembram?) mas que acabaram como professores, bancários, funcionários públicos ou engenheiros. Éramos uma geração que começava a ter acesso a tecnologia e pós-crise econômica; Comprar discos, revistas e livros não era assim tão impossível.Difícil mesmo era se comunicar com outros como nós. E durante a primeira parte da minha vida, eu era exatamente assim. Exatamente como o personagem brilhantemente interpretado por Guilherme Weber na  montagem da Sutíl Cia. de Teatro, "Trilhas Sonoras de Amor Perdidas". Eu era sim um cara profundo na minha superfície e que adorava montar fitas cassetes para demonstrar o que não sabia dizer com palavras. Lógico que estamos em uma obra de ficção e assim como qualquer público, nos gostamos de nos ver idealizados quando transpostos para a tela/palco. Foi assim com "Alta Fidelidade", romance matador de Nick Hornby, depois transformado em filme e também com duas montagens da mesma Sutil; "A Vida é Cheia de Som & Fúria", livre adaptação do mesmo livro de Hornby, e "Nostalgia", lançadas em 2000 e 2001 respectivamente. Recentemente, outro filme mexeu com o nosso imaginários nerd-rockeiro; "500 dias com ela", mais uma vez, mostrava o sensível cara conhecedor de música que procura por uma alma gêmea perfeita com uma trilha sonora rebuscada que deixa crias por onde consegue.



Aqui, vemos a história de um casal narrada em flashback a partir de uma noite passada insône pelo protagonista. Vemos a vida de cinco anos, muito bem marcada por "Five Years", de David Bowie, sendo contada detalhe por detalhe. Mas, numa pressa e uma confusão só comparadas com a sensação adolescente do querer, através de centenas de pedaços de canções, ora facilmente reconhecidas, ora cruelmente obscuras, só para deixar todos alí sonhando em conhecer tudo aquilo. Ou não...

O grande ponto que trouxe muito a obra pro meu lado é justamente essa frenética justaposição de referências sonoras, tão amontoada e rica que fica impossível para 99% do universo acompanhar. Vemos ali, numa montagem de cenário rítmica e cinematográfica, momentos que qualquer um de nós consegue se identificar mas não ter vivido. Tudo idealizado; Momentos perfeitamente sincronizados com músicas perfeitamente apropriadas. Uma mulher tão bagunçadamente sonhada por tantos homens da minha idade na adolescência (bonita, sexy, inteligente, rápida e, claro, profunda conhecedora de música, cinema e afins) e que, pra deixar a história ainda mais 'musical', morre, deixando um vazio perfeito para inspirar milhares de canções e milhares de fitas.


A peça é sim uma espécie de variação de "Alta Fidelidade". Mas mais profunda, talvez. Divaga mais sobre perda, morte, solidão, casamento, mas é exatamente profunda na pesquisa musical e no amontoado de referências. Mas é sim melhor. em todos os sentidos. Mesmo que a originalidade do tema seja meio batido, ainda faz muito sentido nesses nossos tempos de muita oferta e pouca absorção. Os adolescentes de hoje, apesar do acesso irrestrito a tudo, não tem mais uma referência. Um oráculo. E acho que todos deveriam ir assistir para, quem sabe como eu, saírem de lá sacudidos ou pelo menos, com mais uma dúzia de músicas para as suas playlists atuais. Como o próprio personagem fala; "Fita ou playlist, é tudo a mesma coisa..."

A ambientação em Curitiba (cidade natal da companhia) deixa tudo com mais poético e belo. Alguns momentos, como a crônica sobre casamento e Nirvana são arrebatadores... Clássicas, eu diria... Não saíram da minha cabeça por um longo tempo.

Não ví como nostalgia. Nem me ví interpretado. Passei pela adolescência e posso dizer que saí ganhando. Existe sim, final feliz...

Márcio Guariba (UmTemperamentalViveAqui!, 2011)



Trilhas Sonoras de Amor Perdidas Playlist 

Tracklist;

  1. “We’ve been had” The Walkmen
  2. “Thirteen” Big Star
  3. “Bold as love” Jimi Hendrix
  4. “Shakin’ all over” Vince Taylor
  5. “Give him a great Big kiss” The Shangi-las
  6. “Midnight train to Georgia” Gladys Knight & The Pips
  7. “Don’t get me wrong” The Pretenders
  8. “Billy Bud” Morrissey
  9. “Feelin’” The La’s
  10. “Gold soundZ” Pavement
  11. “I can’t stand up for falling down” Elvis Costello & the Attractions
  12. “Moon dance” Van Morrison
  13. “The first cut is the deepest” P.P. Arnold
  14. “Last night I dreamed that somebody loved me” The Smiths
  15. “You made me love” Screamin’ Jay Hawkins
  16. “Long Flowing Robe” Todd Rundgren
  17. “Alone again, or…” Love
  18. “Soul on fire” Spiritualized
  19. “Ladies and Gentleman, We’re floating in space” Spiritualized
  20. “Five years” (Live On Old Grey Whistle Test 1972) David Bowie
  21. "Beetlebum” Blur
  22. “I am the cosmos” Chris Bell
  23. “I’m not in love” Fun Loving Criminals
  24. “Beast of burden” Rolling Stones
  25. “Just like you” Roxy Music
  26. “Just like heaven” The Cure
  27. “Brown eyed girl” Van Morrison
  28. “Femme fatale” Velvet Underground & Nico
  29. “Rattlesnakes” Lloyd Cole & The Commotions
  30. “So real” Jeff Buckley
  31. “A change is gonna come” Sam Cooke
  32. “Loaded” Primal Scream
  33. “She’s falling in love with a monster man” Screaming Lord Sutch & The Savages
  34. “About a girl” Nirvana

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