Música + Cinema; 'Cássia', de Paulo Henrique Fontenelle


Música + Cinema; 'Cássia', de Paulo Henrique Fontenelle 
Em determinado momento do documentário Cássia Eller, de Paulo Henrique Fontenelle, o entrevistado Oswaldo Montenegro diz o seguinte sobre a cantora, morta em 2001, aos 39 anos e no auge da carreira: “Cássia desimplicou o Brasil”. O filme faz mais do que repassar as polêmicas e recuperar as nostalgias dos hits e contextualiza a obra de uma artista que conseguiu não só trafegar entre vários estilos como tornou frágeis as barreiras que existem entre a MPB, o rock, o samba de raiz, o pop radiofônico e outras categorias estanques.
Cássia foi um fenômeno até hoje incomparável no pop nacional: começou como uma artista de musicais para depois despontar como uma voz feminina de personalidade dentro do rock brasileiro. De personalidade extremamente tímida e avessa a bajulações, se transformava no palco quase como se baixasse um espírito. Era seu principal modo de comunicação, tanto com o público, quanto com si mesma.
O documentário recupera momentos emblemáticos de Cássia no palco, como o show histórico no Rock In Rio onde tocou “Smell Like Teen Spirit” do Nirvana, até o famoso Acústico MTV, que a tornou uma estrela de primeira grandeza no pop nacional. Mas a maior força do filme são os arquivos esquecidos, recuperados de diversas fontes que mostram a cantora no início da carreira e em muquifos pelo interior, já famosa, onde tocava para pequenas plateias por puro prazer.


É um retrato honesto da cantora e vai além dos clichês alimentados sobre ela. Um olhar que revela uma personagem agressiva e feroz nos palcos e nos discos, mas frágil e delicada no cotidiano. Uma estrela que não conseguiu lidar com sua própria ascensão.


O filme não é brilhante em sua narrativa, mas constrói com delicadeza a evolução musical de Cássia ao passo em que relaciona com sua vida pessoal. Ajudou bastante o fato do apoio que o diretor teve da família da cantora, sobretudo seu filho, Chicão, hoje na casa dos 20 anos. “Lembro de jogar bola com ela, andando de skate. Eu já procurei, essas coisas vão surgindo das minhas conversas com minha mãe (Eugênia) sobre a história. Eu nunca procurei o passado da minha mãe, eu só sei porque ela é minha mãe, as pessoas me contam, perguntam certas coisas, nunca fui pesquisar, acho que não preciso”, lembra ele em um dos momentos mais emocionantes do longa.


Esposa de Cássia, com quem ela viveu por 14 anos, Maria Eugênia Vieira, é peça fundamental no documentário e traz detalhes importantes sobre momentos da carreira da cantora. É sua participação que leva o filme a um outro patamar além do batido “doc musical”, dando uma dimensão humana que engrandece o filme como um todo. Em determinado momento estamos vendo na tela um longa sobre direitos LGBT no Brasil ao reviver o processo que deu a guarda de Chicão para Maria Eugênia. Foi a primeira vez no Brasil que isso aconteceu no Brasil em um contexto de relação homo afetiva. “Cássia foi justa antes da justiça”, lembrou Maria Eugênia.
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